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Falar de Parentalidade Generativa na mediação de conflitos nas famílias, é também incluir a citação de Xavier Guix: “As relações humanas não são experiências, mas encontros. Ao outro, nunca podemos sentir completamente. Podemos apenas encontrar-nos com ele. E, curiosamente, nesse encontro, encontramo-nos a nós próprios. Por isso, cada encontro com outro ser humano é sagrado”.

Mediação em sede de resolução de conflitos, é sinónimo de comunicação humana. Este é um método que busca a restauração do diálogo entre pessoas (os mediados) que desejam encontrar uma solução para as suas disputas de modo a verem restituída a capacidade de resolver os seus próprios conflitos autonomamente, fora das litigâncias judiciais.

Como funciona a mediação de conflitos nas famílias

No campo específico da mediação familiar, entendamos a mediação de conflitos como a criação dum espaço seguro para explorar soluções criativas nas questões de família, bem como para a resolução de conflitos internos e/ou externos em que há lugar à formulação de objectivos que possam satisfazer os interesses e as necessidades mais intrínsecas de ambos os mediados, sempre que se comprometam com o procedimento que exige a participação emocional e o envolvimento directo em questões delicadas.

Nessa caminhada restaurativa, que se quer transformadora, cabe ao mediador como facilitador de comunicação entre duas partes em conflito, equipar a sua caixa de ferramentas com técnicas e práticas eficientes para lidar com a gestão de conflitos que envolvem relações afectivas de natureza continuada. Essas ferramentas de diálogo permitem criar um canal de comunicação favorável para a construção voluntária, das partes envolvidas no conflito, de uma solução que preserve a funcionalidade familiar, valide diferentes pontos de vista e que atenda da melhor forma possível a diferentes exigências, pretensões e necessidades, principalmente as de cunho emocional e afectivo.

O que é afinal um conflito familiar?

O conflito é um fenómeno inerente às relações humanas e por isso está presente em todos os tipos de relacionamentos e modelos familiares. Recorrer à metodologia da mediação familiar pode revelar-se uma alternativa eficiente para tratar os conflitos nesta sede, uma vez que a mediação pode devolver à família a competência para gerar a própria solução dos seus conflitos (sejam eles, separação, divórcio, alimentos a menores, guarda dos filhos, regime de visitas, partilha de bens, morada de família, etc) a partir da restauração da comunicação e da sua capacidade de negociação para se chegar a um entendimento satisfatório que, além de solucionar o conflito, garanta a preservação dos seus vínculos parentais (um filho é para a vida) e de ex-conjugalidade.

A Programação Neurolinguística e a Parentalidade Generativa no apoio à mediação familiar

A mediação familiar traça um caminho para promover uma mudança de paradigma na qual prevaleça o mútuo entendimento.

O mediador familiar pode recorrer ao uso de ferramentas, modelos e práticas de PNL (Programação Neurolinguística), integrados na Parentalidade Generativa, que o auxiliam nas questões e nos afectos mal resolvidos em família, uma vez que os conflitos familiares têm características próprias que podem ser solucionadas de forma mais transformadora com a ajuda de um terceiro imparcial (o mediador) e fora da via judicial.

Os vários pressupostos da PNL são de grande utilidade para o mediador de conflitos, que os aplica em si e nas nas sessões de mediação. Tal como a um pai, a uma mãe, é essencial ao mediador familiar interiorizar esses pressupostos, na medida em que o auxiliarão na sua postura imparcial e sem preconceito para a validação do “mapa de mundo” de cada mediado.

Segundo Joseph O’Connor, “cada pessoa vê o mundo de forma diferente e possui diferentes experiências de vida. Com isso, acabam por atribuir significados diversos ao que acontece e frequentemente vemos pessoas envolvidas em algum tipo de conflito, quando não compreendem, não respeitam ou não aceitam a diferença de percepção individual do outro sobre um determinado acontecimento. No entanto, embora os conflitos surjam a partir da convivência, é fundamental a todo o ser humano saber relacionar-se com o outro, mesmo que para isso seja necessário desenvolver melhores habilidades comunicacionais que permitam obter o que se deseja ou até compor um acordo no qual ambos obtenham ganho.”

Esse caminho pode passar pelo uso da PNL como um modelo de comunicação de excelência que permite descobrir como cada uma das partes constrói os seus pensamentos (a sua experiência subjectiva) e ensinando-as a trabalhar produzindo alterações positivas.

Robert Dilts, co-developer e um dos maiores expoentes da PNL Sistémica, reconhece que existem, em particular, três habilidades eficientes no estudo da PNL que podem potencializar o desempenho do mediador de conflitos, neste caso em sede familiar, que envolvem vínculos continuados. São elas:

a) a habilidade de estabelecer rapport;
b) de identificar intenções positivas;
c) e entrar nas diversas posições perceptivas.

Estas habilidades podem ser desenvolvidas e caberá ao mediador prestar atenção aos detalhes, quer no cuidado e preparação do ambiente físico onde vão acontecer as sessões de mediação, quer das pessoas que vão participar nas mesmas, com um zelo especial no atendimento em sessão conjunta ou em sessão privada ou individual. O ambiente físico deve ser harmonioso e equilibrado, o relacionamento entre mediador e mediados deve ser contemplado com a delicadeza de pequenos gestos na interacção que se pretende alcançar de modo a que inicie o rapport que serve para ajudar os mediados a sentirem-se mais à vontade para tratar dos seus conflitos delicados de uma forma menos tensa. Isso favorece a adesão dos mediados ao processo de mediação familiar que exige uma imensa disponibilidade emocional e afectiva, sendo imprescindível todo o cuidado nos mínimos detalhes na comunicação verbal e não verbal (congruência e autenticidade) do mediador num ambiente seguro que permita um relacionamento de qualidade com os mediados que possa evoluir para um ambiente de confiança e responsabilidade. É importante que o mediador se coloque num estado em que está completamente presente para os mediados e para a gestão do conflito e exerça o controlo do processo de comunicação que apenas existe na inter-relação e por esta é definida.

Como se opera a transformação na mediação

Como dizia Carl Rogers, “qualquer pessoa é uma ilha, no sentido mais concreto do termo; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com outras ilhas se primeiramente se dispor a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma”.

Ao estabelecer rapport, nas sessões de mediação entre mediador e mediados, cada pessoa se sente mais conectada com o processo de mediação e com aquilo que o mediador propõe durante as sessões (sensação de conexão com o outro, empatia, sintonia). No fundo, é encontrar-se com outra pessoa dentro do seu modelo do mundo.

Com isso, os mediados passam a responder positivamente à mediação por se sentirem reconhecidos na atenção dispensada pelo mediador, tornando-se mais empenhados, comprometidos e responsáveis ao longo do percurso de mediação.

Chegado a este ponto, o mediador pode “conduzir” os mediados a um estado emocional mais benéfico (procurando a melhor versão de cada um) ou ajudá-los a transformar a sua forma de comunicar, tornando-a mais eficiente e adequada, abrindo um novo leque de opções ao “como escutar activamente”, porque escutar dá existência ao outro.

Assim como na Parentalidade Generativa, também na mediação, e segundo O’Connor, “uma pessoa não é o seu comportamento” (o mediado não é o comportamento conflituoso), ou seja, é essencial separar as pessoas do seu problema em questão, separar os mediados do conflito em concreto, pois de outro modo não será possível alcançar uma boa comunicação que crie entendimentos mínimos para a resolução daquele conflito. Um momento, um comportamento não são totalizadores da identidade duma pessoa. Deve aceitar-se a pessoa e ter consciência de que aquele comportamento em conflito é transformável, é apenas a melhor escolha que se teve naquele momento.

Há que procurar as melhores histórias e narrativas para além daquele conflito ou comportamento, porque quando se encontram as histórias positivas, trabalham-se os “círculos virtuosos”, as interacções que conduzem à cooperação e à confiança recíproca (Isabel Oliveira). Há que procurar as condições relacionais para o crescimento duma história alternativa à história fixa do conflito em que se legitime a multiplicidade de vias de história que evidenciem os valores e intenções base dos mediados. Quando um valor é essencial para uma das partes, há que lhe devolver esse valor (servir de espelho para o melhor que a pessoa revela).

Identificar intenções positivas por detrás dos comportamentos humanos visa promover o entendimento do que os mediados verdadeiramente necessitam, ou seja, quais são as suas intenções por detrás dos seus comportamentos, uma vez que todas as suas acções possuem um propósito positivo.

Eu, ele o outro e algo mais na mediação de conflitos familiares

Sempre que alguém ganha consciência da intenção positiva por detrás do seu comportamento, pode melhorar a escolha dos mesmos e da prática da acção que poderá realizar a sua intenção positiva de forma adequada. É a partir da descoberta das intenções positivas que surgem novas possibilidades de mudança nos comportamentos que mantêm e que sustentam os conflitos entre os mediados.

A definição de uma posição perceptiva para a PNL em mediação, significa o ponto de vista que se adopta e que “diz respeito às diferentes perspectivas”. As diferentes posições que os mediados podem experimentar referem-se à habilidade humana de se perceber a si mesmo, bem como de imaginar o que os outros compreendem no sentido imaginário, ou seja, colocando-se no lugar de outra pessoa de modo a “estar na sua pele” ou “calçar os seus sapatos”.

Aqui, mais uma vez, as práticas da Parentalidade Generativa fazem a diferença, já que o mediador propicia aos mediados uma experiência diferente, com outras lentes e posições, onde a comunicação e a pedagogia do diálogo para a resolução do conflito assumem um novo e essencial papel: gerar empatia, autenticidade e presença.

Na mediação familiar com recurso à PNL, a habilidade de se colocar em diferentes posições liga-se ao pressuposto de que “um mapa não é um território” (reage-se ao que se acredita ser a realidade e não à realidade em si) e que juntas podem oferecer uma forma alternativa de enriquecer o seu próprio “mapa mundo”, bem como os dos mediados, proporcionando-lhes a possibilidade de experimentar o conflito sobre a perspectiva e olhar de outra pessoa, e funcionando como uma poderosa prática para o mediador poder utilizar como um “meta-mapa” ou “meta-modelo”. Estabelece-se aqui a importância do meta-modelo para trabalhar a linguagem e compreender a estrutura da experiência narrativa de cada mediado, colocando questões assertivas e poderosas cujas respostas podem iniciar a mudança, a transformação, a motivação; estratégias verbais para se aceder à estrutura profunda (significados inconscientes ou escondidos) de cada mediado identificando a raiz do problema ou conflito, permitindo a sua transformação.

E quando conseguimos identificar o seu sistema de representação preferencial, damos um grande passo no sentido de perceber o outro a um nível mais profundo: “o seu mapa passa a fazer parte do nosso mapa”.

Ao mediador pede-se “presença”, ou seja, consciência, atenção e foco. A qualidade da sua presença, como na Parentalidade Generativa, determina a sua capacidade de orientar o conflito, de saber desde onde, como e quando agir, que “instrumentos” utilizar. Primeiro perceber o que se está a passar consigo, dentro de si, tendo a capacidade de se aceitar a si mesmo, para aceitar o outro.

“Uma mediação pode ser considerada bem-sucedida, se as pessoas sabem como continuar”.
Wittgenstein.

A PNL que conduz a mediação familiar ao mundo das infinitas possibilidades

A PNL conduz o mediador ao mundo das infinitas possibilidades, geradoras de soluções criativas que activam a capacidade dos mediados resolverem os seus próprios conflitos, sejam internos ou externos, chegando à estação em que se sentem alinhados com aquilo em que acreditam, com aquilo que querem ver nas suas vidas e estão prontos para iniciar os passos transformadores e criar as condições relacionais para uma história alternativa sem conflito, em conexão consigo, com o outro e com a família que se reorganizará.

Cria-se espaço generativo para uma história de relação para a vida (como pais e ex-companheiros), consciente, confiante em harmonia. Cria-se espaço para o crescimento e desenvolvimento pessoal dos mediados, uma vez que estão identificados os padrões de comportamento, pensamento, motivações, intenções, limitações, crenças e valores. Cria-se espaço para o desvendar e revelar-se um caminho de presença, autenticidade e congruência, condutor duma vida que se quer intencional e geradora do que mais se deseja ver acontecer na vida e na família. Cria-se espaço para mergulhar na “verdade emocional” e “sabedoria interior” de cada um (Rita Aleluia), recursos que apoiarão os mediados na travessia da responsabilidade de cada um pela mudança transformadora. Cada mediado passa a ser um agente de mudança em si próprio e do que quer ver na sua vida e mundo.

E “mudar o mundo é mudar a família” (Virginia Satir). Comecemos por esse “microcosmo do mundo” e “torna-te no adulto que queres que o teu filho se torne” (Brené Brown).

Aqui (na relação de parentalidade em momento de conflito familiar/conjugal) cria-se espaço  para a reflexão dos mediados quanto a uma questão essencial: se saíssem do momento presente e se olhassem no futuro, como gostariam de se encontrar consigo próprios, na relação com o ex-companheiro e com os filhos? Quais as intenções de cada um, enquanto pais? Que pai ou mãe querem ser para o seu filho no conflito e para além do conflito? Que pai ou mãe querem ser para o seu filho na pós-conjugalidade? Que identidade querem gerar no seu filho?

A Teresa acredita que a vida é reinvenção e habita os dias com a curiosidade de uma criança que em tudo quer crescer e desenvolver. Mãe biológica de três, mas na verdade, mãe de coração de quatro. Recentemente, a família cresceu com mais uma dádiva que foi recebida e integrada de coração por todos. É jurista de formação e segue agora um caminho feito de acolhimento e vivência da parentalidade no exercício da sua profissão, como coach e consultora para a família, parentalidade e escolaridade.

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